Nunca se há-de chegar a um consenso quando se fala de grandes escritores, de grandes livros. Para uns, como eu, Saramago foi um génio, para outros será sempre um gajo que nem pontuar sabe. Há quem devore, com entusiasmo, livros do Sousa Tavares e do José Rodrigues dos Santos, mas eu não lhes consigo pegar - já peguei, não gostei, não me cativaram, não me fizeram querer ler mais coisas escritas por eles.
Há nisto uma grande dose de subjectividade, de gosto próprio, porque nem todos procuramos o mesmo num livro ou num autor. Há quem leia para aprender, há quem goste de livros para se distrair, há quem adore saborear prosas bonitas, palavras acarinhadas, e há quem prefira a história, o enredo, a intriga, o suspense. Uns querem envolver-se com as personagens, viver com elas, levá-las na mala, conhecer-lhes o passado, e os pais e sobrinhos e perceber como eles tratam o gato, e há os que galgam páginas indiferentes a isso, procurando apenas o desfecho final.
Eu gosto um bocadinho dos dois registos, mas valorizo muito mais uma história rica, emocionante e bem contada, do que uma história sem grande história mas contada com frases que nos deslumbram como fintas do Messi. O que acho verdadeiramente estúpido são os rótulos que se colocam aos autores que não procuram as tais frases artísticas mas sim palavras simples que nos encaminham perante uma história. Diz-se serem menores, populares, apenas porque vendem aos milhões e preferem agarrar-nos pela história e não pela arte da escrita tricotada.
O ano passado li pela primeira vez um livro do Ken Follett. E comecei pelo último dele, o mais recente, o primeiro volume da "Queda dos Gigantes", um calhamaço de mil páginas que mais parecem 100 tal a velocidade a que aquilo se lê. Quis conhecer mais. Fui procurar as outras obras mais populares dele. Agarrei n' "Os Pilares da Terra", mais mil páginas, num registo totalmente diferente, mas igualmente viciante. Depois disso já li "O Homem de Sampetersburgo" e ontem terminei "O Terceiro Gémeo", que li em três ou quatro dias, apesar das quase 600 páginas.
Follett é dos tais que não faz origami com frases, prefere antes contar boas histórias. Considero-me um consumidor razoável de livros e não conheço muitos autores que consigam fazer o que ele faz, que é prender-nos a cada página. Nos livros de Follett - pelo menos nos que eu li - há sempre qualquer coisa a acontecer. Há sempre uma personagem presa a qualquer coisa, alguém que esconde um segredo, que está metido numa alhada, há sempre uma decisão importante que tem de ser tomada. Ler estes livros é mais ou menos a mesma coisa que ver episódios atrás de episódios das primeiras temporadas do "24". E fazer isto, criar estes cenários, estes enredos, estas personagens, estes mistérios, as dúvidas, é algo que requer muito trabalho, muita arte, muito talento.
E depois lá vêm os pseudo-intelectuais dizer que o Follett é um autor menor, e eu não percebo porquê. Onde é que ele falha? Em que é que ele é mau? O que é que está ali a mais ou a menos? A arte de escrever é, sobretudo, a arte de contar uma história, não apenas na forma, mas também no conteúdo. E quase sempre eu prefiro o conteúdo à forma. Dizer que o Ken Follett é um mau escritor é mais ou menos a mesma coisa que dizer que o Xavi é um mau jogador de futebol, só porque marca poucos golos e faz poucas fintas (para quem não sabe, o Xavi é capitão do Barcelona e da selecção espanhola de futebol, o cérebro da equipa, o homem que põe toda a gente a jogar, que carrega a equipa às costas, campeão da Europa de selecções e de clubes, campeão do mundo de selecções e de clubes, e duas vezes consecutivas considerado o 3º melhor jogador do mundo, atrás do Messi e do Ronaldo).
Ontem, depois de ter terminado "O Terceiro Gémeo", agarrei-me ao "Filho de Mil Homens", do Valter Hugo Mãe - a minha estreia, nunca tinha lido nada dele (a minha mulher leu este e disse-me que era maravilhoso). O registo é o oposto do Follett, muito mais Gabriel Garcia Marquez, muito mais trabalhado na construção das frases, mais pensado nas palavras, mais bonito, bem escrito, mas menos galopante, menos vibrante, menos entusiasmante. Li 50 páginas de seguida e parei porque estava a morrer de sono, e odeio ler a cabecear de sono. Mas do que li não esqueço o homem que chegou aos 40 anos, o Crisóstomo, o tal que só se sentia meio completo, o que lhe faltava metade de tudo, como não esqueço a Anã e as suas costinhas, ou o menino Camilo que era esperto a matemática. Eu sei que foi só ontem, e que é normal lembrar-me de tudo, mas a verdade é que passaram mais de 20 anos que li os "Cem Anos de Solidão" e continuo a lembrar-me dos Aurelianos Buendias, e Aurelianos Josés, e Aurelianos Segundos da história de Garcia Marquez, e a sensação que guarda dessas personagens é a mesma que guardo agora, com este registo de Valter Hugo Mãe.
Isto tudo para dizer que um grande escritor, para mim, é aquele que nos toma, de alguma forma, seja pela arte de contar a história seja pela teia de palavras que nos deixa de joelhos. Nuns dias quero ler uns, noutros dias prefiro outros. Agora os que menorizam uns só porque todos o conseguem ler e elevam os outros, os que parecem apenas ao alcance dos iluminados, esses, para mim, são apenas tristes.