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27 de Janeiro de 2012

Os corta-tesão profissional

Faz-me alguma confusão ver casais que não se apoiam, que são desligados dos projectos e ambições um do outro, gente que só pensa em si e nas suas coisas, deixando que o outro pense nas coisas dele e trate das coisas dele. O individualismo está cada vez mais presente, talvez por culpa do estilo de vida que promovemos, dos ritmos dos nossos trabalhos, que não permitem que se chegue a casa às cinco e que se vá passear, ou que se fique a falar sobre o dia, ou que se partilhem grandes coisas. Por norma, chega-se a casa a tempo de fazer o jantar, janta-se, arruma-se a cozinha, trata-se dos miúdos e quando se olha para o relógio são 22h30 ou 23h e já não há tempo para muito mais.

Mas isto não desculpa o desinteresse pelos projectos e ideias do outro. Há sempre um dos membros do casal que é mais dinâmico e aventureiro, e outro menos ambicioso, mais resignado e menos activo. Muitas vezes, os problemas estruturais das relações vêm desse desequilíbrio de forças e ambições, do desgaste que uma das partes sente por não se sentir apoiado, ou por sentir que o outro não o acompanha em quase nada, não o ajuda a sonhar, e nem sequer se dá ao trabalho de promover dias diferentes, preferindo sempre as zonas de conforto, as tardes no sofá, os passeios de sempre, as rotinas instaladas.

Da forma como as coisas estão, com um mercado cada vez mais exigente, e em que as empresas se veem obrigadas a cortar gorduras (que muitas vezes são trabalhadores dispensáveis), torna-se imperativo que todos sejamos mais activos, mais empreendedores, mais imprescindíveis. Isso dá mais trabalho, obriga-nos a sair das tais zonas de conforto, mas também nos torna melhores profissionais, pessoas mais interessantes e atentas a coisas que normalmente nos passavam ao lado.

Só que estas pessoas - as naturalmente dinâmicas, ou as que aprenderam a sê-lo - têm de ser acompanhadas em casa nessas suas ambições, ideias não podem esbarrar contra muros de indiferença, que só servem para travar sonhos e amputar projectos que até poderiam ser interessantes. A sensação de chegar a casa cheio de adrenalina para fazer qualquer coisa nova, para avançar com uma ideia que se teve e que anda a fervilhar na cabeça há dias, falar com o parceiro sobre isso e ter como resposta um "ah, que giro, mas olha, tens de ir lá abaixo comprar rabanetes para a sopa" é o que eu chamo de corta-tesão profissional. Um homem ou uma mulher com ideias e ambições que tenha como companheiro alguém mole e desinteressado dificilmente será feliz. E pior: o mais provável é a pessoa mais ambiciosa anular-se, deixar-se vencer pelo cansaço, e desistir da sua forma de ser, contrariar a sua natureza, deixar-se escorregar para o sofá, que até é confortável. Quando assim é, todos perdem. A pessoa, o casal, o país.

26 de Janeiro de 2012

Saudades de Chicago

Já fui muito feliz aqui.

A ver se me orientava, no Millenium Park, ao pé do "feijão"

No hall de entrada da Willis Tower, o edifício mais alto dos States

O talento da Luísa (ou não)

Ontem, a discussão lá em casa foi sobre a Luísa Sobral.
Eu acho-a uma miúda cheia de talento, que canta maravilhosamente, que encontrou o seu espaço na música portuguesa, que soube parar para ir estudar, soube aprender a cantar, descobriu e trabalhou o seu registo. Para a minha mulher, ela é a personificação do sapo Cocas, uma imitação farsola da Lisa Ekdahl, que como não sabe cantar força a voz e sai-lhe aquele registo.

Uma pessoa que se mova no registo de outra (neste caso, a Lisa Ekdahl) não é, necessariamente, uma imitadora. E não é, sobretudo, alguém sem talento, ou sem qualidades.
Eu dei-lhe um exemplo: quando o Tiago Bettencourt apareceu, toda a gente dizia que era uma cópia do Jorge Palma. Muito bem. Alguns anos depois, o Tiago Bettencourt tornou-se num dos melhores músicos portugueses, com canções originais que nada têm que ver com o registo do Palma, com rock puro, com baladas lindas, com música mais tradicional. Para mim, o último álbum dele é sublime, do melhor que se fez nos últimos anos na música nacional. E, lá está, só porque quando apareceu tinha um registo idêntico ao do Palma tinha de ser necessariamente mau, ou um copião? Não. Porque ele tem talento, e soube crescer.

Com a Luísa Sobral passa-se a mesma coisa. Até pode ter uma sonoridade dentro da onda da Lisa Ekdahl - sim, tem - mas basta ouvi-la para perceber o talento que há ali. Não é por aos 16 anos ter tentado a sorte no "Ídolos" a cantar Shakira que tem, obrigatoriamente, de ser um flop. Ela soube parar, soube perceber que não era por ali que queria ir, soube perceber que tinha de aprender a cantar, e foi o que fez. Foi para os Estados Unidos, estudou numa escola de música, estudou jazz, foi para Nova Iorque, estudou mais um bocado, cantou em bares à noite, e esperou pela oportunidade. Encontrou um registo de voz adequado (é o registo com que ela canta - isso não faz dele um registo forçado - seria o mesmo que dizer que o registo de um escritor é forçado só porque quando escreve livros tem um registo diferente de quando escrever mails aos amigos), e encontrou o espaço onde queria movimentar-se - o jazz, e não o pop.

Ontem, tive a oportunidade de a ouvir ao vivo, à minha frente, enquanto ela ia respondendo a perguntas e falando sobre a sua vida.
Se já gostava da voz e da música, passei também a gostar e a admirar a pessoa.
Quem não conhece, que ouça. Vale a pena.



Este é o primeiro álbum - no segundo, ela terá mais canções cantadas em português

Leituras em dia

Este ano tem sido produtivo no que toca a leituras.
Para já, despachei a biografia do Steve Jobs, O Sentido do Fim e já vou a meio de Os Descendentes.
Mas lá falar de cada um deles.

Steve Jobs

É um livro fascinante para quem, como eu, admira os produtos Apple e gosta de homens diferentes. E Steve Jobs era um homem diferente. O livro está bem escrito, é riquíssimo em episódios caricatos de vida, é imparcial, e consegue transportar-nos para a realidade de vida de um homem visionário, que sonhou que um dia mudaria o mundo e, de alguma forma, mudou-o.
Walter Isaacson, o autor, entrevista o próprio Jobs, naturalmente, mas também a mulher, a filha, Bill Gates, Steve Wozniak, colaboradores que Jobs despediu, amigos próximos, inimigos próximos, e, desse conjunto de relatos, consegue chegar-se a algo que seguramente andará muito perto da verdade dos factos.
Steve Jobs tinha tanto de determinado como de louco, de genial como de irascível, de trabalhador como de pedante, de ídolo como de escroque. Era alguém com quem eu jamais seria capaz de trabalhar, mas que, seguramente, conseguiria admirar. São precisos homens destes para que muitas coisas aconteçam, e elas aconteceram, e ainda bem. É um grande livro, que vale mesmo a pena ler, e que nos dá histórias intermináveis para contar aos amigos (eu tenho chateado muitos, ultimamente).

O Sentido do Fim

Estava à espera de muito mais de um livro que venceu o Booker Prize. É um livro em que custa a entrar, que nos dá sempre a sensação de estarmos a ler um diário de alguém que vai falando da sua vida, ora com nostalgia, ora com mágoa, ressentimento, arrependimento, alguém que até nem se importou de envelhecer, mas que a desocupação da reforma lhe dá para repensar cada aspecto da vida, cada atitude, até mesmo aquele episódio que se passou há 40 anos e que, hoje, ganha um importância impensável.
Nunca tinha lido nada do Julian Barnes, e não fiquei fã. Admiro algumas coisas no estilo, gosto da forma como se perde nas ideias, e depois as retoma, como se estivesse a falar connosco, gosto do twist final, mas não acho que este seja um grande livro.

Os Descendentes

Já conhecia a história, já conhecia a história da autora, e por isso a história não está a ser surpreendente. É o problema de querer saber tudo sobre os filmes que vão estrear.
O livro tem uma escrita demasiado simples – por vezes a roçar o simplista -, e parece escrito para ser adaptado a cinema. As acções são separadas por capítulos (como se fossem cenas) e esta divisão torna o livro muito acessível.
A história é pesada, mas a forma simples como é apresentada suaviza-a. Há momentos um bocadinho esquisitos – como um pai contar a uma filha que algo de verdadeiramente trágico irá acontecer quando estão os dois a nadar na piscina (hummm, alguém escolheria este momento?) – e outros divertidos, sempre num ambiente de uma família rica havaiana, despreocupada, que vive na praia, e que gosta das coisas boas de viver na praia.
As personagens estão bem construídas, são densas, mas são pouco alteradas pelo decurso da narrativa. A sucessão de episódios marcantes deveria moldar comportamentos, alterar feitios, provocar sentimentos que teriam, necessariamente, de interferir no modo de viver e sentir daquelas pessoas. Isso nota-se pouco, sente-se pouco, o que retira alguma credibilidade à história.
Ainda assim, estou a gostar. É uma história envolvente, que se lê num instantinho. É esse o meu objectivo, pelo menos – terminá-lo antes de ir ver o filme, ou seja, até amanhã.




Miúdos, idades giras, idades parvas

Para os pais, os filhos estão quase sempre a passar por uma fase gira.
Quando são recém-nascidos é porque são bebés fofinhos.
Quando têm 1 ano é porque começam a andar e a dizer "papá e mamã".
Aos 2 anos é porque já percebem quase tudo o que lhes ensinamos.
Aos 3 é porque já interagem imenso e parecem esponjas a apreender tudo à volta.
Aos 4 é porque parecem adultos em ponto pequeno, falam, não usam fraldas nem chucha, começam a ser autónomos em algumas coisas.
Aos 5 é porque já têm discursos articulados, pensamentos completos, já dormem até mais tarde, e, o melhor dos melhores, conseguem sair da cama, ir lavar os dentes sozinhos, ir para a sala, ligar a televisão e ficarem a ver os desenhos animados, sem acordarem os pais (mas é claro que levantamo-nos na mesma, nem que seja para ver se está tudo bem, e dar-lhes o pequeno-almoço).

Pronto, isto é discurso de pai.
Depois há aquela malta que não tem filhos, e que não vai muito à bola com as crianças, e que acha que todas as idades das crianças são parvas.
Eu até acho que sim, que há idades parvas, mas ainda não passei por isso. A dos rapazes começa aí aos 10 anos e dura até aos 16. A das miúdas começa aí aos 8 e vai até aos 24.

25 de Janeiro de 2012

Os exigentes e os desleixados

Há gente que se irrita com aquelas pessoas que passam a vida no "gosto/não gosto". Às segundas, quartas e sextas acham que sim, às terças, quintas e sábados acham que não. E lá andam elas, naquelas relações que não se percebe muito bem o que são, nem para onde caminham, em que os sentimentos são confusos, muitas vezes de parte a parte, e em que uma parte não investe, logo, não há amor cresça, e a outra, sentindo o parceiro distante, também fica triste, ou amuado, e não investe, e desilude-se. Estas fases chegam a durar meses, e se ninguém der um passo firme para a frente ou para trás, o que irá acontecer é o fim, o desencanto final.

É normal que haja dúvidas em todas as fases das relações. No início, porque é o início, porque não se sabe muito bem interpretar o que se sente, porque não se sabe distinguir o encantamento com o amor, porque há passado demasiado presente, porque o outro é ainda uma incógnita. Depois, a meio, porque se chegou a um impasse, porque se nota que o outro se desleixou, que as coisas já não são como no início, o sexo deixou de ser espectacular, os planos de vida também não são assim tão coincidentes, as discussões começam a ser mais regulares. E ao fim de muitos anos, porque já são demasiados anos, porque há curiosidade em conhecer algo novo, porque o sexo é quase nenhum, porque a atração já se foi, porque os filhos roubam todo o tempo, porque o dinheiro não chega para nada, porque não há nada a dizer àquela pessoa, porque estamos cheios, fartos, sufocados, cansados, e achamos que o melhor até pode ser voltar ao zero, e procurar uma coisa nova que nos faça felizes.

Conheço muitos casais que se encaixam em cada uma destas três categorias, a dos acho-que-gosto-mas-se-calhar-não-gosto-mas-se-calhar-gosto-mesmo-ou-talvez-não.

O problema aqui é sempre o mesmo, e a solução para isto também é essa: investimento.
Acho que quando se investe numa relação, e quando se investe a sério, a probabilidade de as coisas resultarem é muito maior. O problema, aqui, é saber se o outro também vai investir, ou se também quer investir, mas isso já foge ao nosso controlo.
Há muita gente que tem medo de investir, de arriscar, porque acha que vai estatelar-se ao comprido, vai magoar-se, vai dar, uma vez mais, com os cornos na parede. Mas a solução qual é? Viver retraído? Deixar andar? Entregar-se só mais ou menos?
Quando se encontra alguém, uma pessoa que tenha aquilo que nós procuramos, devemos dar tudo de nós, e exigir do outro um nível idêntico de entrega. Sem medo de levar com o rótulo de "exigente". Mil vezes "exigente" do que "desleixado" ou "desinteressado".

Alcatraz

Sou apaixonado por histórias de fugas de cadeia. Acho que é uma coisa que vem dos tempos de puto, de quando jogava "The Great Escape", no Spectrum 48k, numa altura em que não fazia ideia de que o jogo tinha como ponto de partida um filme - por sinal, muito bom, com o Steve McQueen.
Mais tarde, devia ter eu uns 12 ou 13 anos, vi o "Fuga para a Vitória", mais uma história dentro de uma cadeia, e que até metia um jogo de futebol, e em que entravam o Stallone e o Pelé. O que eu adorava aquilo. Vi o filme tantas vezes que a fita da cassete de VHS ficou estragada (muitos anos mais tarde, comprei o DVD).

Uma das minhas primeiras reportagens de grande dimensão foi sobre a maior fuga de sempre de uma cadeia europeia, que se deu em 1979, da prisão de alta segurança de Vale de Judeus. Foram 124 presos que conseguiram fugir através de um túnel escavado a partir de uma cela. O mais engraçado é que uns dias antes estes mesmos presos tinham estado a ver, na prisão, o filme "The Great Escape" (quem terá sido o génio que se lembrou de escolher este filme?).

Os anos foram-se passando, e eu fui papando tudo o que eram histórias deste género. Em 2003, concretizei um sonho, o de ir a Alcatraz, a prisão mais apaixonante e cinematográfica de sempre. A visita turística é muito interessante e se um dia forem a São Francisco não percam o tour, que vale mesmo a pena.

Recentemente, vibrei com o Prison Break (as duas primeiras séries são muito boas, depois aquilo perde um bocadinho o sentido - mas vi tudo, claro). E fiquei a achar que faziam falta mais séries deste género. Há dias, percebi que J. J. Abrams, o criador de "Lost", e que o ano passado realizou o interessante "Super 8", produziu uma série chamada, precisamente, "Alcatraz". A série estreou nos Estados Unidos, já vai no terceiro episódio, e basicamente conta a história do reaparecimento, nos dias de hoje, de 300 prisioneiros que desapareceram na altura do fecho da cadeia, em 1963. O ponto de partida é este - afinal, Alcatraz não fechou por razões de segurança, mas porque os prisioneiros desapareceram. Quase 40 anos depois, reaparecem, sem terem envelhecido, e começam a cometer os mesmos crimes que os levaram à cadeia nos anos 60. É criada uma equipa para os recapturar, e enfiar novamente nas celas de uma réplica de Alcatraz.

Confesso que o primeiro episódio me deixou um bocadinho desiludido (estava à espera de uma coisa com  menos fantasia, e mais realista), mas já vi os dois seguintes e, admito, aquilo é giro, e deixa-nos com vontade de querer ver mais.
Um dia destes coloco aqui fotos minhas da visita a Alcatraz. Para já, ficam outras.

O jogo "The Great Escape", para o Spectrum - as horas que perdi nisto


O filme "The Great Escape", com Steve McQueen (cheio de pinta)


Stallone é o guarda-redes da equipa de prisioneiros, em "Fuga para a Vítória"


A série "Alcatraz", de J. J. Abrams, que me começa a cativar

Runs

A manhã começa com uma corridinha de 10 km, para ver se consigo eliminar algumas das 50 mil calorias que ingeri a mais em Paris.
Aqui vou eu...

24 de Janeiro de 2012

Ohhh... Ye!

Malas feitas. Acabou-se.
Adeus Paris, crepes, chuva, frio.
Gosto tanto de viajar como de voltar a casa.
Em Março há mais.
Começou o countdown para o Rio.

From Paris, with love